É preciso acordar

Recente matéria levantava a questão das razões da passividade do brasileiro quando o assunto é corrupção. De fato, será que entre uma passeata reivindicando aumento para bombeiros, outra pela legalização da maconha, uma terceira celebrando o orgulho gay e outra ainda chamada de “marcha das vadias”, não haveria espaço para que as ruas ganhassem a presença de multidões exigindo a necessária e óbvia compostura dos políticos, exigindo respeito pelo dinheiro público? Afinal, eu, você, leitor, seus amigos, os meus, o cara da esquina, o porteiro do prédio, todos, enfim, “descem a lenha” nos envolvidos em casos de corrupção. A tirar daí, deveríamos ter multidões dignas de figurar no “Guiness” cobrando ações radicais, capazes de levar os ratos a enfiarem seus rabos entre as pernas, com medo das ratoeiras espalhadas pelo país, mais especificamente nos órgãos públicos. Mas, entretanto, as ruas continuam vazias, os ratos, sem medo, prometendo vingança quando o poder público ensaia tímidos movimentos saneadores. Por que será?

Em todas as passeatas acima citadas, os manifestantes defendem seus interesses diretos. Sejam os bombeiros e suas famílias cobrando salários, sejam os gays e as “vadias” cobrando respeito a seus direitos e assim por diante. Já os males da corrupção são mais escamoteados, o dinheiro roubado é o desse “ente” meio vago chamado Estado, tido, também ele, como mais um rato, sempre à espreita para “tirar mais algum” do povo. E vamos levando, vendo as propinas abandonarem os tradicionais dez ou quinze por cento para não se contentarem com nada menos do que o equivalente a outra obra. Chegamos a um ponto em que, como se dizia antigamente em relação a saúva, ou acabamos com a corrupção ou ela, como vampiro, beberá todo o “sangue” da economia brasileira. É preciso acordar, sacudir a letargia, bradar aos quatro ventos, que ela, corrupção, é a verdadeira mãe de todos os males, sejam os da saúde, da educação, dos salários aviltantes, dos impostos vergonhosos. É preciso mostrar que é a nossa grana, sim, que estão tungando. É o dinheiro dos aumentos dignos, das escolas que não precisem de cotas, dos bons empregos, desonerados da carga tributária.

Essas figuras que rastejam, nos meandros das nomeações suspeitas têm horror à luz, têm pavor dos movimentos de massa. Não importa a cooptação de entidades representativas. Não precisamos de “guias”. Enquanto esse tumor não for lancetado não haverá cura. Só as ruas serão capazes de tocar o pragmatismo dos políticos que, com seu respaldo, terão força e coragem para romper com a bandalheira histórica e inaugurar uma nova era marcada pela “rédia curta”, pela vigilância constante. Não importa que hoje os corruptos ainda dêem de ombros, sorrindo descrentes. Afinal, Maria Antonieta também mandou dar brioches para os que clamavam às portas do palácio.

Igor Berro
colunista do Correio do Brasil.

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